Jiu-Jitsu: Entenda a briga de Federações e os diversos “Campeonatos Mundiais”

O Jiu-Jitsu é uma arte muito antiga. Sua história, só no Brasil, já ultrapassou os 100 anos, quando trazida pelo Conde Koma, em 1915. De lá pra cá foram criadas algumas variações e o esporte foi rebatizado de “Brazilian Jiu-Jitsu“. Adeptos defendem sua inclusão como esporte olímpico. Segundo o COI (Comitê Olímpico Internacional), o Jiu-Jitsu precisaria ser praticado em 75 países e 4 continentes e 40 países e 3 continentes por mulheres e ainda possuir uma entidade que regule o esporte mundialmente. Existe a IBJJF (International Brazilian Jiu Jitsu Federation), mas, por trás disso, existe um enorme problema. Só no Brasil, temos várias federações, mas vamos especificar apenas três: A CBJJ ( Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu), presidida pelo Mestre Carlinhos Gracie, a CBJJE (Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu Esportivo), presidida pelo Moisés Muradi e a CBJJO (Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu Olímpico), presidida pelo Gran Mestre Walter Nogueira.

Foto: Reprodução

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Mas, qual o motivo de tantas Confederações? Entenda!

Pelo conflito de interesses, não há consenso entre as entidades e a realização de torneios independentes e periódicos não preveem uma disputa para unificação de títulos. Existem questionamentos sobre as cifras arrecadadas com a realização de campeonatos, onde não se demonstra investimento no crescimento do esporte, já que seria uma obrigação das federações, segundo os estatutos. Tanto para o COB (Comitê Olímpico Brasileiro) e para o COI (Comitê Olímpico Internacional), essa “celeuma” invalidam a Arte Marcial, denigrem seu caráter e afastam investidores, assim como atletas futuros. Hoje é comum vermos vários campeonatos disputados. Vários Campeonatos Mundiais. Vários Campeonatos Brasileiros. Estamos chegando ao absurdo de dizer que teremos o Campeonato Mundial do Estado X. Daqui a pouco teremos “Campeonatos Mundiais” criados por cada estado. Dentro de um ano chegaremos a ter 23 campeões mundiais (1 por estado brasileiro), fora os campeões da Califórnia e de Abu Dhabi. Será mais fácil encontrar um “Campeão Mundial de Jiu-Jitsu” andando pelas ruas do que um artista de rua. Hoje em dia, qualquer promotor que estiver disposto a investir uma grana com premiação, consegue realizar um “Campeonato Mundial” e, sem apoio por causa da briga constante das federações, que causam a falta de reconhecimento do esporte, as maiores estrelas do Jiu-Jitsu tendem a competir em busca da premiação, embora alguns desses campeonatos não estejam sob a chancela de nenhuma das Confederações. Não vou divulgar os eventos, até porque não conheço seus organizadores. Também não vou criticar, pois o esporte é carente de patrocínio e atletas devem buscar sempre as premiações.

Carlinhos Gracie, Presidente da CBJJ

Walter Nogueira, Presidente da CBJJO

Muradi

Conversando com o Mestre Marcial Serrano, atleta, pesquisador e escritor de vários livros (Géo Omori – O Guardião Samurai, O livro proibido do Jiu-Jitsu, a história que os Gracies não contaram, volumes 1 a 5, dentre outros), além de faixa preta de Judô e de Jiu-Jitsu (Coral 7º Grau, pela CBJJE, ABMJJ, C.F.Fadda, CBJJP, CBMMA, CBLP, USFBJJ.), obtive algumas opiniões, afinal é sempre bom ouvir os mais experientes, já que o mesmo é praticante desde a década de 70. Para Marcial Serrano, isso é um tema bastante complicado.

A primeira análise é de um comércio que assusta, mais analisando com maior atenção, pode-se notar de existe muito de idealismo e luta. Se formos só analisar pelo aspecto financeiro e organizacional, temos muito que caminhar. Hoje com diversas Confederações atuando na organização do Jiu-Jitsu (CBJJ, CBJJE, CBJJO, CBJJD, CBJJP, CBJJT, CBJJ&J e mais alguma que desconheço), teve como pioneira a BBJJ no Rio de Janeiro, tendo como presidente Carlinhos Gracie. Devido à ditadura imposta pelos seus fundadores passou a ser “Donal” (tem dono), e com isso se tornou  uma entidade puramente comercial, que visa primeiramente o lucro, sem idealismo algum (apesar de o lucro fazer parte de qualquer atividade comercial ou esportiva, tanto para pagar o custo de sua organização, como para o seu progresso, só é condenável quando o lucro do dinheiro arrecadado vai para o bolso de alguns poucos).

Marcial Serrano. Foto: Acervo Pessoal

Sobre o cargo vitalício de Carlinhos Gracie a frente da CBJJ, Marcial foi enfático:

O Carlinhos nunca foi um idealista, é simplesmente um empresário que se aproveitou do momento propício e criou sua entidade com fins puramente comerciais. Se ele não o tivesse feito, outros certamente o fariam. O vitalício evita que outros concorram ao cargo (como sugerido por Robson Gracie, quando das reclamações de um grupo de praticantes. Façam uma eleição e como membros votem em outro para presidente). Carlinhos então se protegeu.

Para o futuro do Jiu-Jitsu, Marcial discorda dessa centralização de poderes.

Já é hora de se preparar um Fórum Nacional para se debater diversos assuntos comuns a todas as Confederações. Começando pela metodologia, nomenclatura, sistema único de graduação, modernização das regras para transformar o jogo em uma ação mais dinâmica, obrigação do “Faixa Preta” em demostrar conhecimento da autodefesa, dos primeiros socorros, e da luta em pé. Já dispomos de uma “Associação Brasileira de Mestres de Jiu-Jitsu” ABMJJ sediada no Rio de Janeiro, e organizada por Grandes Mestres de Origem Fadda, Luís Carlos Guedes de Castro e Wilson Pereira de Mattos, que tem como missão cadastrar (após criteriosas e profundas pesquisas), e Certificar com seu “Certificado de Excelência” os Mestres e Grandes Mestres do Jiu-Jitsu Brasileiro, além de trabalhar para que a arte do Jiu-Jitsu não perca sua marcialidade conforme aconteceu com o Judô Esportivo, que atualmente em alguns Dojôs vem incorporando as técnicas perdidas de autodefesa e do ne-waza.

O Jiu-Jitsu tem fundamentado a vida de muitos atletas, assim como de simples praticantes, como eu. Quando iniciei na Arte Suave, no início da década de 2000, o Jiu-Jitsu tinha uma fama altamente negativa, por causa dos famosos “Pitboys”, gíria criada para dar nome aos brigões de rua e de festas, praticantes de Jiu-Jitsu. Lembro que minha família foi contra na época, quando decidi praticar. Algum tempo depois, comecei a enxergar o futuro no esporte (futuro do esporte, não meu. Sou Contador, de formação). Mas a medida em que o tempo passou, o conflito de interesses falou mais alto e o esporte ganhou suas divisões. Acho que falta uma moralização. O jogo de interesses não deve ser maior do que a arte.

Nenhum homem deveria colocar seus interesses à frente da Arte. Enquanto isso, vamos treinando, aprendendo e desfrutando dessa brilhante forma de defesa pessoal. Deixemos as brigas pros maiores interessados.

Para finalizar, quero deixar que não defendo nenhuma das confederações. Essa matéria surgiu de um bate papo com um amigo, também praticante da arte, faixa marrom, que levantou algumas questões. Imaginei que existam vários atletas sem entender os motivos de tantas confederações e decidi esclarecer um pouco

Fonte: Bruno Carvalho

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